A memória do Sete de Setembro tem um personagem de peso, de mais de 2 mil quilos. É o sino que tocou para anunciar a presença do príncipe regente dom Pedro I na cidade de São Paulo, em 1822, e que ficou conhecido como o Sino da Independência.

No Brasil agrícola do século XIX, os sinos marcavam a passagem do tempo no lugar do tique-taque dos relógios. Anunciavam nascimentos, mortes, missas, e também a chegada de figuras da família real à cidade.

Foi da Praça da Sé, onde ficava a antiga catedral, na época a torre mais alta de São Paulo, que o badalo do sino anunciou a chegada de dom Pedro I à cidade.

Assim, como o grito de Independência ou Morte, o sino se tornou um símbolo do surgimento da nação. O professor de história da USP, João Paulo Pimenta, fala sobre como os paulistanos receberam o recado.

Sonora: “Algumas pessoas que sabiam o que tava acontecendo pensavam ‘olha, tem uma pessoa importante aqui na nossa cidade.’ Outras pensavam: ‘lá vem de novo esse sino ai que badala toda hora.’ O recado ele não era para ser entendido com exatidão porque a independência não foi produzida num único dia, num único momento. A presença de dom Pedro foi aumentando de importância na medida em que, ao longo do ano de 1822, a sua autoridade foi sendo construída e foi sendo legitimada de modo que ele se tornasse finalmente um imperador.”

Com a demolição da antiga Catedral da Sé, em 1913, o sino, apelidado de bronze velho, foi transferido para o Mosteiro da Luz e, de lá, foi doado para a Igreja de São Geraldo, na zona oeste da capital paulista. Há quase 80 anos, o sino se encontra no alto da torre, que tem cerca de 40 metros de altura.

Para chegar até o Bronze Velho, é necessário subir três lances de uma escadaria com degraus íngremes. Quem chega ao topo, pode perder o fôlego também por estar perto de uma relíquia de 200 anos. No sino, que pesa quase 2,5 toneladas, estão gravados o nome do autor, Francisco Chagas Sampaio, as armas do reino de Portugal e um trecho do Salmo 150.

Além do bronze, o sino foi forjado com 18 quilos de ouro, o que deve ter chamado a atenção dos ladrões que roubaram o badalo em 2003. Mas, para a surpresa deles, a peça não era feita de ouro, apenas de ferro e bronze. E nem era o badalo original que, aliás, está muito bem guardado.

O episódio do roubo segue até hoje sem suspeitos. O sino ganhou um novo badalo e, em datas especiais, como Páscoa e Natal, seu repique ainda reverbera a memória da independência do país.